{"id":1503,"date":"2023-11-30T01:04:21","date_gmt":"2023-11-30T01:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/?post_type=noticias-amf&#038;p=1503"},"modified":"2023-11-30T01:04:22","modified_gmt":"2023-11-30T01:04:22","slug":"ecologo-david-lapola-comenta-lacunas-cientificas-sobre-conservacao-captura-de-carbono-emissoes-por-degradacao-florestal-e-adaptacao","status":"publish","type":"noticias-amf","link":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/noticias-amf\/ecologo-david-lapola-comenta-lacunas-cientificas-sobre-conservacao-captura-de-carbono-emissoes-por-degradacao-florestal-e-adaptacao\/","title":{"rendered":"Ec\u00f3logo David Lapola comenta lacunas cient\u00edficas sobre conserva\u00e7\u00e3o, captura de carbono, emiss\u00f5es por degrada\u00e7\u00e3o florestal e adapta\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"672\" height=\"372\" src=\"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-19.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1505\" srcset=\"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-19.png 672w, https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-19-300x166.png 300w, https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-19-600x332.png 600w\" sizes=\"(max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O ec\u00f3logo e meteorologista David Lapola pesquisa h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas o tema das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a quest\u00e3o do&nbsp;<em>tipping point<\/em>&nbsp;da Amaz\u00f4nia \u2013 \u201cponto de n\u00e3o-retorno\u201d ou \u201cponto irrevers\u00edvel\u201d. Doutor pelo Instituto Max Planck de Meteorologia da Alemanha, onde investigou a quest\u00e3o de modelagem de desmatamento e mudan\u00e7a clim\u00e1tica, tem como interesses de estudo os impactos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Amaz\u00f4nia \u2013 n\u00e3o s\u00f3 na floresta, mas tamb\u00e9m sua reverbera\u00e7\u00e3o sobre sistemas humanos. Neste ano David completou 20 anos do in\u00edcio de suas pesquisas na Amaz\u00f4nia, comemorados durante uma excurs\u00e3o cient\u00edfica com parte de seu grupo para iniciar um novo estudo em regi\u00f5es que ainda desconhecia \u2013 como o extremo oeste da Amaz\u00f4nia brasileira, j\u00e1 pr\u00f3xima da fronteira com Peru e Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2017 Lapola integra o Centro de Pesquisas Meteorol\u00f3gicas e Clim\u00e1ticas Aplicadas \u00e0 Agricultura da Unicamp. Em 2021 recebeu o t\u00edtulo honor\u00e1rio de embaixador da Universidade Tecnol\u00f3gica de Munique (Alemanha), em reconhecimento \u00e0s pesquisas que desenvolve na \u00e1rea de ecologia, em especial o projeto&nbsp;<a href=\"https:\/\/amazonface.inpa.gov.br\/\">AmazonFACE<\/a>&nbsp;\u2013 um amplo programa de pesquisa de coopera\u00e7\u00e3o internacional de longo prazo, que estuda como os n\u00edveis de CO<sub>2&nbsp;<\/sub>atmosf\u00e9rico esperados para o futuro afetar\u00e3o a maior floresta tropical do mundo. Em 2021 o AmazonFACE recebeu o apoio de 2,25 milh\u00f5es de libras (cerca de R$ 17 milh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca) da embaixada brit\u00e2nica em um acordo de coopera\u00e7\u00e3o com o Instituto Nacional de Pesquisas na Amaz\u00f4nia e a Unicamp, o que permitiu os&nbsp;<a href=\"https:\/\/abori.com.br\/ambiente\/projeto-pioneiro-que-vai-analisar-impacto-do-co2-atmosferico-na-amazonia-inicia-testes\/\">primeiros passos da etapa experimental do programa no final de agosto<\/a>, e viabilizar\u00e1 o in\u00edcio da primeira fase do experimento no come\u00e7o de 2023.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2022 Lapola participou pela primeira vez como autor de um relat\u00f3rio do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU, contribuindo como colaborador em dois cap\u00edtulos no volume II do relat\u00f3rio que tratou das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, Adapta\u00e7\u00e3o e Vulnerabilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a entrevista realizada para o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/153-emergencia-climatica-e-as-implicacoes-do-relatorio-do-ipcc-ep-1\/\">podcast Oxig\u00eanio<\/a>&nbsp;e publicada aqui. Leia tamb\u00e9m outra parte desta entrevista em&nbsp;<a href=\"https:\/\/oeco.org.br\/reportagens\/maior-problema-climatico-na-amazonia-e-o-ponto-de-nao-retorno-diz-pesquisador\/\">((o))eco<\/a>:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\" id=\"attachment_8772\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/lapola1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8772\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">David Lapola (camiseta amarela) no s\u00edtio experimental do AmazonFACE, \u00e1rea de Reserva do Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz\u00f4nia (Inpa). Foto Jo\u00e3o M. Rosa\/AmazonFACE.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Quais as principais novidades\/conclus\u00f5es e sua contribui\u00e7\u00e3o para os cap\u00edtulos em que foi autor, na segunda parte (ou volume) do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/assessment-report\/ar6\/\">Sexto Relat\u00f3rio do IPCC (AR6)<\/a>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei muito orgulhoso de ser a primeira vez que eu participei de um relat\u00f3rio do IPCC. O primeiro \u00e9 o cap\u00edtulo sobre a Am\u00e9rica do Sul e Central, que fala muito dos impactos esperados das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de forma geral para essa regi\u00e3o. Tentei trazer uma vis\u00e3o mais equilibrada sobre a quest\u00e3o do&nbsp;<em>tipping point<\/em>&nbsp;Amaz\u00f4nico, ou \u00e0s vezes tamb\u00e9m chamado&nbsp;<em>dieback<\/em>&nbsp;ou savaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante lembrar que o IPCC n\u00e3o faz ci\u00eancia nova, ele revisa ci\u00eancia j\u00e1 existente. Ent\u00e3o como a Am\u00e9rica Central \u00e9 mais pobre em literatura cient\u00edfica sobre impacto, vulnerabilidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o cap\u00edtulo ficou um pouco mais pobre para essa regi\u00e3o. E como h\u00e1 mais literatura para a Amaz\u00f4nia do que para a por\u00e7\u00e3o mais ao sul da Am\u00e9rica do Sul \u2013 as \u00e1reas de plan\u00edcies com vegeta\u00e7\u00e3o de gram\u00ednea, como por exemplo na Patag\u00f4nia \u2013, a Amaz\u00f4nia teve uma cobertura maior no cap\u00edtulo, uma vez que nosso trabalho acaba sendo muito guiado pelo corpo de literatura que existe. A minha contribui\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica foi nessa regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia com o Cerrado \u2013 fornecendo uma vis\u00e3o bem geral desde impactos para a biodiversidade, a pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o dos biomas, os recursos h\u00eddricos na regi\u00e3o e os impactos para a sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Contribu\u00ed bastante nessa vis\u00e3o do&nbsp;<em>tipping-point&nbsp;<\/em>[amaz\u00f4nico], e tamb\u00e9m sobre a biodiversidade, principalmente aqui na Am\u00e9rica do Sul \u2013 o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre a biodiversidade; o que a gente sabe e o que a gente n\u00e3o sabe ainda.&nbsp;<strong>Tem bastante buraco nessa \u00e1rea ainda.<\/strong>&nbsp;<strong>A pr\u00f3pria quest\u00e3o de \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o de biodiversidade, unidades de conserva\u00e7\u00e3o: como que a gente vai lidar com isso em um mundo com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas onde a distribui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies pode mudar, mas no qual o limite da sua \u00e1rea protegida continua o mesmo? Como \u00e9 que a gente vai resolver isso?<\/strong>&nbsp;J\u00e1 tem alguns estudos discutindo e tentamos trazer a vis\u00e3o desses estudos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra mensagem importante para o Brasil \u00e9 a quest\u00e3o tanto de biocombust\u00edveis como o conceito que n\u00e3o tem muito paralelo no portugu\u00eas que seria algo como florestamento. Uma mensagem forte nesse \u00faltimo relat\u00f3rio \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conseguiremos manter o aquecimento m\u00e9dio global abaixo de 1,5\u00b0C se n\u00f3s n\u00e3o tirarmos ativamente g\u00e1s carb\u00f4nico da atmosfera. Uma das maneiras que se fala em fazer isso \u00e9 o conceito de BECCS \u2013 sigla em ingl\u00eas que quer dizer Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono. Um exemplo: voc\u00ea tem planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar e produz energia disso, seja o etanol, seja a energia el\u00e9trica ao queimar o baga\u00e7o da cana. E quando voc\u00ea queima esse baga\u00e7o ou voc\u00ea queima esse etanol \u2013 o baga\u00e7o \u00e9 queimado l\u00e1 na usina; o etanol \u00e9 queimado no escapamento no motor dos nossos carros e sai o CO<sub>2<\/sub>&nbsp;do escapamento \u2013, voc\u00ea teria que de alguma forma capturar esse g\u00e1s carb\u00f4nico para transform\u00e1-lo e armazen\u00e1-lo em algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, n\u00e3o existe essa tecnologia ainda em larga escala. Tem s\u00f3 projetos pilotos que d\u00e1 para contar nos dedos de uma m\u00e3o, e s\u00e3o todos pilotos. Ou a tecnologia n\u00e3o funciona bem, ou funciona bem mas n\u00e3o tem escala, no sentido de que \u00e9 muito caro. Voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer isso ainda na escala que precisa para tirar todo esse CO<sub>2<\/sub>&nbsp;da atmosfera. Mas se essa tecnologia for desenvolvida, coloca-se muita esperan\u00e7a, digamos assim, de que o Brasil supriria boa parte dessa demanda de produ\u00e7\u00e3o de bioenergia \u2013 pelo menos a produ\u00e7\u00e3o de bioenergia. Depois, se a tecnologia para capturar o CO<sub>2<\/sub>&nbsp;e armazen\u00e1-lo vai vir de fora a\u00ed \u00e9 outra hist\u00f3ria. E&nbsp;<strong>\u00e9 \u00f3bvio que isso mexe com o nosso sistema da terra. Ser\u00e1 necess\u00e1rio ampliar planta\u00e7\u00f5es de cana ou qualquer outro tipo de planta? De onde viria essa energia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E outra mensagem forte para a gente tamb\u00e9m \u00e9 uma outra estrat\u00e9gia para retirar o CO<sub>2<\/sub>&nbsp;da atmosfera que \u00e9&nbsp;<strong>plantar floresta mesmo onde originalmente n\u00e3o era floresta<\/strong>. E j\u00e1 teve estudo em revista como a&nbsp;<em>Nature<\/em>&nbsp;polemizando, dizendo que vastas \u00e1reas do Cerrado deveriam ser plantadas para virar floresta. Isso a\u00ed deixa os ec\u00f3logos e o pessoal que estuda Cerrado de cabelo em p\u00e9! E, assim\u2026, qual a praticabilidade disso \u2013 a gente plantar extens\u00edssimas \u00e1reas, tudo de floresta? H\u00e1 d\u00favida se isso seria suficiente para retirar todo o CO<sub>2<\/sub>&nbsp;que a gente quer da atmosfera, e se isso seria fact\u00edvel com a quest\u00e3o de titularidade da terra, que \u00e9 t\u00e3o complicada nessa regi\u00e3o, principalmente ali na transi\u00e7\u00e3o do Cerrado com a Amaz\u00f4nia, em que h\u00e1 muita grilagem. Como \u00e9 que voc\u00ea convence os propriet\u00e1rios a plantar floresta de maneira permanente nas propriedades deles, se eles nem t\u00eam o t\u00edtulo da terra? Como \u00e9 que a gente inicia esse debate?&nbsp;<strong>S\u00e3o quest\u00f5es importantes para o Brasil, mas que ainda est\u00e3o pouco debatidas como no caso desse florestamento, ou em que a tecnologia ainda n\u00e3o chegou, no caso desse conceito de BECCS.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 reflorestamento pressup\u00f5e que eram locais de floresta. E o reflorestamento de 12 milh\u00f5es de hectares \u00e9 um compromisso que o Brasil assumiu no Acordo de Paris. Essa meta se relaciona com o C\u00f3digo Florestal. Inclusive, tem estudiosos do assunto que dizem que esses 12 milh\u00f5es de hectares ir\u00e3o recuperar, na verdade, aquilo que a gente perdeu com a&nbsp;<a href=\"https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/perguntas-que-a-ciencia-ja-respondeu\/2020\/O-novo-C%C3%B3digo-Florestal-explicado-em-12-pontos\">revis\u00e3o do CF em 2012<\/a>&nbsp;<strong>\u2013<\/strong>&nbsp;ou seja, talvez fique elas por elas.&nbsp;<strong>Talvez tenha uma import\u00e2ncia muito maior para conserva\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos e para biodiversidade, conectando diferentes paisagens, mas esses 12 milh\u00f5es de hectares s\u00e3o principalmente para recuperar o d\u00e9ficit do C\u00f3digo Florestal \u2013 \u00e1reas que est\u00e3o em desacordo ao CF.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto ao impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no comprometimento da resili\u00eancia da Floresta Amaz\u00f4nica, mas ainda h\u00e1 incerteza em rela\u00e7\u00e3o a quanto que o desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o j\u00e1 contribu\u00edram para acelerar a aproxima\u00e7\u00e3o do&nbsp;<em>tipping point<\/em>&nbsp;da Amaz\u00f4nia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem estudos que consideram que se a gente ultrapassar 40% [de degrada\u00e7\u00e3o] ou at\u00e9 mesmo 20% [de desmatamento da Bacia Amaz\u00f4nica], j\u00e1 estar\u00edamos comprometendo essa resili\u00eancia da floresta em car\u00e1ter irrevog\u00e1vel. A gente tem que ser honesto e criterioso; esses estudos ainda apresentam poucas evid\u00eancias de que esse seria o limiar mesmo.&nbsp;<strong>E pode ser que paremos agora o desmatamento \u2013 que a gente n\u00e3o ultrapasse nem os 20% de desmatamento [da Bacia Amaz\u00f4nica] \u2013 e mesmo assim o&nbsp;<em>tipping point<\/em>&nbsp;ocorra por conta de mudan\u00e7a clim\u00e1tica extrema, e n\u00e3o por conta do desmatamento em si, que entra a\u00ed como um agente acelerador do processo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 claro, tem muita incerteza a come\u00e7ar pelo que vai acontecer com o desmatamento, embora esteja ficando mais evidente essa tend\u00eancia de secar na Amaz\u00f4nia. Que vai aquecer n\u00e3o \u00e9 d\u00favida, mas claro, ainda tem d\u00favida se ser\u00e3o 2,0\u00b0C que vai aquecer na regi\u00e3o, ou se ser\u00e3o 5,0\u00b0C. E qual ser\u00e1 o impacto disso sobre a floresta&nbsp;<strong>\u2013<\/strong>&nbsp;a floresta tem capacidade de se adaptar a isso, de se aclimatar digamos, a isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s\u00e3o mudan\u00e7as, diga-se de passagem, que n\u00e3o condizem com um tempo evolutivo. Voc\u00ea falar de d\u00e9cadas para mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 nada em termos de evolu\u00e7\u00e3o, certo? Ent\u00e3o&nbsp;<strong>n\u00e3o d\u00e1 tempo de as \u00e1rvores evolu\u00edrem, se adaptarem, mas o que pode acontecer \u00e9 uma reposi\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies<\/strong>. Como a gente tem grande diversidade na floresta, pode ser que algumas esp\u00e9cies se tornem mais preponderantes, se favore\u00e7am com esse novo clima \u2013 o aumento de g\u00e1s carb\u00f4nico \u2013, e outras tenham a sua distribui\u00e7\u00e3o reduzida. Isso j\u00e1 vem sendo observado at\u00e9 em partes, principalmente no sul da Amaz\u00f4nia, onde est\u00e1 ocorrendo a reposi\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies com mais afinidade por um clima mais \u00famido, por esp\u00e9cies com mais afinidade por um clima mais seco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alguns estudos recentes t\u00eam mostrado que devido ao aumento da \u00e1rea desmatada, algumas regi\u00f5es da floresta amaz\u00f4nica j\u00e1 s\u00e3o uma fonte emissora de carbono para a atmosfera, como o estudo de&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.inpe.br\/noticias\/noticia.php?Cod_Noticia=5876\">Luciana Gatti e colaboradores publicado em 2021<\/a>&nbsp;na revista&nbsp;<em>Nature<\/em>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao estudo no sul da Amaz\u00f4nia que mostra que a floresta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um sumidouro mas uma fonte de carbono \u2013 quando eu falei que a floresta [Amaz\u00f4nica] vem atuando como um sumidouro de carbono, ou seja, absorvendo o carbono [CO<sub>2<\/sub>] da atmosfera, eu estou falando de florestas relativamente intocadas. Onde voc\u00ea n\u00e3o tem desmate, onde n\u00e3o tem degrada\u00e7\u00e3o. E esse estudo conduzido de maneira muito bem liderada pela Luciana Gatti, do INPE, foi feito atrav\u00e9s de sobrevoos de avi\u00e3o em que foram medidas essas trocas de g\u00e1s carb\u00f4nico entre a atmosfera e a superf\u00edcie. E ali \u00e9 uma regi\u00e3o em que h\u00e1 muitas florestas naturais, mas tamb\u00e9m tem muito desmate e muita degrada\u00e7\u00e3o florestal. E a\u00ed quando se tem desmate voc\u00ea emite o carbono; quando se tem degrada\u00e7\u00e3o voc\u00ea emite menos carbono, mas emite tamb\u00e9m. E naquela regi\u00e3o essa conta foi ultrapassada. Est\u00e1 havendo mais emiss\u00e3o [de CO<sub>2<\/sub>] \u2013 por desmatamento e degrada\u00e7\u00e3o \u2013 do que absor\u00e7\u00e3o pela floresta intocada em si.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse m\u00e9todo com avi\u00e3o n\u00e3o consegue separar a contribui\u00e7\u00e3o de cada um no balan\u00e7o de CO<sub>2<\/sub>. O quanto a floresta preservada est\u00e1 absorvendo; o quanto o desmate est\u00e1 emitindo; e o quanto a degrada\u00e7\u00e3o est\u00e1 emitindo. Voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea a conta total \u2013 se ela \u00e9 positiva ou negativa. E&nbsp;<strong>qual \u00e9 o n\u00edvel dessa emiss\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o? Esse \u00e9 um processo pouco estudado<\/strong>, pouco observado ainda.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\" id=\"attachment_8773\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/lapola2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8773\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">David Lapola junto a primeira torre de CO2 testada em agosto em Campinas, marco para o in\u00edcio da fase experimental do AmazonFACE. Foto de Bruno Takeshi.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Em maio deste ano voc\u00ea esteve com alguns membros de sua equipe em trabalho de campo na Amaz\u00f4nia.&nbsp; Como voc\u00eas viram a percep\u00e7\u00e3o das pessoas e\/ou comunidades visitadas em rela\u00e7\u00e3o a epis\u00f3dios\/eventos clim\u00e1ticos extremos e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? H\u00e1 o reconhecimento dessa rela\u00e7\u00e3o e quais s\u00e3o os principais impactos e estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o j\u00e1 observados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um projeto pequeno, como se fosse um adendo do AmazonFACE. A gente se debru\u00e7a sobre uma meta espec\u00edfica de um objetivo do desenvolvimento sustent\u00e1vel que \u00e9 o&nbsp;<a href=\"https:\/\/labterra.cpa.unicamp.br\/ods-2-4-am\/\">ODS n\u00famero 2<\/a>, Fome Zero e Agricultura Sustent\u00e1vel. Tem uma meta espec\u00edfica desse ODS que tenta relacionar a mudan\u00e7a do clima, extremos clim\u00e1ticos, ecossistemas saud\u00e1veis e seguran\u00e7a alimentar. Nesse nexo a\u00ed que esse projeto entra \u2013 um projeto pequeno, aux\u00edlio regular da FAPESP. A gente investiga tr\u00eas munic\u00edpios no Amazonas que formam um gradiente de seguran\u00e7a alimentar: Manaus, uma seguran\u00e7a alimentar relativamente mais alta; Caruari, no centro do estado, uma seguran\u00e7a alimentar mediana; e Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas, fronteira com Peru e Col\u00f4mbia, que tem uma seguran\u00e7a alimentar mais baixa ou tida como mais baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa foi uma primeira viagem. Fizemos uma viagem louca; passar por esses tr\u00eas locais, visitando comunidades espec\u00edficas. N\u00e3o podemos dizer que conhecemos tudo nesses locais. Uma viagem de prospec\u00e7\u00e3o, para apresentar a equipe, a gente se apresentar, as t\u00e9cnicas do projeto. S\u00e3o todas mulheres, que ainda ir\u00e3o retornar para coletar dados de maneira mais cuidadosa e com calma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algumas coisas que a gente viu muito interessantes, que est\u00e3o em linha com aquilo que eu falei das estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que essas pessoas est\u00e3o sujeitas a extremos clim\u00e1ticos, e as estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o para lidar com esses extremos, elas v\u00eam acontecendo j\u00e1 no n\u00edvel local, s\u00f3 que ningu\u00e9m est\u00e1 sabendo porque isso n\u00e3o \u00e9 reportado em lugar algum. A gente n\u00e3o tem, de maneira sistem\u00e1tica, listas de alternativas de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Poderia dar um exemplo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Carauari, distante ali umas duas horas de barco da cidade de Carauari, que \u00e9 uma cidade pequena, tem em torno de 20-30 mil habitantes no Rio Juru\u00e1; um rio sinuoso, muito caudaloso tamb\u00e9m. Tem uma comunidade j\u00e1 dentro da Reserva Extrativista do M\u00e9dio Juru\u00e1, comunidade famosa que vende j\u00e1 h\u00e1 muitos anos produtos para a Natura. N\u00e3o preciso reportar, assim, as dificuldades que eles v\u00eam passando e tal; como essa rela\u00e7\u00e3o com a Natura acaba sendo bem delicada, para dizer o m\u00ednimo. O que a gente v\u00ea nos comerciais da TV da Natura, talvez n\u00e3o seja aquilo. Um dos produtos que eles comercializam \u00e9 a andiroba, o \u00f3leo de andiroba que faz o shampoo, cosm\u00e9ticos e tal. Eles tiveram no ano passado, por conta do La Ni\u00f1a, que j\u00e1 est\u00e1 desde o ano passado na Amaz\u00f4nia \u2013 as chuvas acima do normal. Eles tiveram uma cheia muito forte do Rio Juru\u00e1. Boa parte dessas \u00e1rvores de andiroba ficam na \u00e1rea de v\u00e1rzea, que \u00e9 inundada pelo rio. S\u00f3 que quando ela \u00e9 inundada de maneira precoce os frutos caem na \u00e1gua, o tambaqui e outros peixes e animais comem, ou a \u00e1gua leva embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, eles perderam mais de 90% da safra da coleta de andiroba no ano passado. Imagina o impacto econ\u00f4mico para essas pessoas. Nesse ano eles j\u00e1 falaram pra gente que j\u00e1 sabem que vai ter cheia recorde de novo e eles come\u00e7aram a coletar a andiroba antes do per\u00edodo usual \u2013 antes do pico de queda das sementes das \u00e1rvores. E claro que isso garante uma colheita menor para eles, mas j\u00e1 \u00e9 melhor do que ficarem com 90% de perda. Ent\u00e3o&nbsp;<strong>esse \u00e9 o exemplo de uma estrat\u00e9gia de adapta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vem ocorrendo; de como essas pessoas v\u00e3o lidar com a floresta sob mudan\u00e7a clim\u00e1tica, mas que a gente n\u00e3o sabia, n\u00e3o sabe. Isso n\u00e3o est\u00e1 catalogado, por exemplo. E qual a import\u00e2ncia de estar catalogado e voc\u00ea saber isso? Bom, tem outras localidades na Amaz\u00f4nia e at\u00e9 mesmo em outras florestas tropicais que podem se beneficiar de estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o simples como essa<\/strong>, ou mais complexas tamb\u00e9m, que a gente vai descobrir ao longo desse projeto que vai at\u00e9 o fim de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma viagem \u00f3tima. Eu n\u00e3o conhecia o Oeste da Amaz\u00f4nia.&nbsp; Eu estava ali\u00e1s, por coincid\u00eancia, celebrando 20 anos da minha primeira viagem para Amaz\u00f4nia e como presente fui conhecer o Oeste da Amaz\u00f4nia. \u00c9 diferente. Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 a dist\u00e2ncia de avi\u00e3o de Manaus, fora da zona de influ\u00eancia mais pr\u00f3xima de Manaus. \u00c9 uma Amaz\u00f4nia mais profunda, onde as coisas t\u00eam que acontecer por si s\u00f3 ali, de maneira mais independente de Manaus. E claro, com todos os problemas que isso acarreta. Voc\u00ea n\u00e3o tem internet direito, as dist\u00e2ncias s\u00e3o imensas, mas foi muito recompensador para a gente. Aprendemos muito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Leandro Magrini \u00e9 doutor em Ci\u00eancias\/Biologia Comparada pela USP. Cursou especializa\u00e7\u00e3o em jornalismo cient\u00edfico pelo Labjor-Unicamp e&nbsp;<\/em>d<em>esenvolveu o projeto de jornalismo cient\u00edfico&nbsp;<\/em><em><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/190839\/divulgacao-cientifica-para-fortalecer-a-defesa-pela-preservacao-da-biodiversidade\/\">\u201cDivulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para fortalecer a defesa pela preserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade\u201d<\/a><\/em><em>&nbsp;apoiado pela FAPESP, bolsa M\u00eddia Ci\u00eancia, junto ao Labjor.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\" id=\"attachment_8774\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/lapola3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8774\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pesquisadora no s\u00edtio experimental do AmazonFACE, \u00e1rea de Reserva do Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz\u00f4nia (Inpa). Foto Jo\u00e3o M. Rosa\/AmazonFACE.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"featured_media":1505,"parent":0,"template":"","class_list":["post-1503","noticias-amf","type-noticias-amf","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/noticias-amf\/1503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/noticias-amf"}],"about":[{"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/types\/noticias-amf"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/noticias-amf\/1503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1505"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gmnzdigital.com.br\/amazonface\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}